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XV Simpósio Internacional Filosofia e Teologia - FAJE 02 a 04 de Outubro de 2019 28/06/2019 - Atualizado em 28/06/2019 h

A ideia do Humanismo formou-se no decorrer de um longo e complexo processo que se estendeu por toda a Antiguidade clássica, pela Idade Média latina e prolongou-se pelos tempos modernos, conhecendo, nos séculos XIX e XX, um grande florescimento e muitas críticas. Herdeiro de três grandes tradições, a grega, a latina e a bíblico-cristã, o Humanismo deve à tradição grega o conceito de interioridade racional e espiritual, a noção de inteligência aberta às realidades transcendentes e a definição do ser humano como natureza racional adequada, pela razão, ao conhecimento do ser na sua universalidade. Da tradição latina ele herdou a noção de humanitas, que define o gênero humano, e a expressão studia humanitatis, que designa os estudos que formavam no jovem as qualidades da humanitas, e a compreensão da estrutura objetiva do direito na edificação da sociedade política. Da tradição bíblico-cristã, ele acolheu a compreensão da transcendência divina, em relação de aliança com a criação, na qual o ser humano ocupa um lugar central, pois foi criado como liberdade à imagem e semelhança de Deus. Desta tríplice herança, três dimensões plasmam o pensamento ocidental: a metafísica, a ético-jurídica e a religiosa. A partir delas formou-se o imaginário social e cultural do Ocidente, no qual o humano ganhou importância e a defesa de sua vida centralidade. Essa base filosófica e teológica do Humanismo define-se, portanto, neste espaço em que o ser humano se abre, pela razão e liberdade, à universalidade do Ser e à afirmação de Deus como Existente absoluto, podendo então ser definido como capax entis: capaz de acolher o Ser na sua universalidade, e capax Dei: ordenado ontologicamente ao Absoluto.

Apesar de central na formação da cultura ocidental, o Humanismo foi objeto de grandes críticas nos últimos dois séculos, sendo fortemente objeto de suspeita a partir da década de 70’. Se por um lado, ele conheceu novas formulações nos séculos XIX e XX, com o “Humanismo ateu” de Marx, Nietzsche e Freud, o “Humanismo científico” de tradição positivista, o “Humanismo pragmatista” norte-americano, o “Humanismo evolucionista” de J. Huxley, o “Humanismo existencialista” de J.-P Sartre e outros, por outro lado, a partir dos anos 70’, o Humanismo foi criticado pelo estruturalismo, o pensamento ecológico, o niilismo pós-moderno, além de conhecer novas leituras, como a da tecnociência e sua formulação do pós e do transhumanismo. Grande parte dessas interpretações modernas e contemporâneas do Humanismo opõe razão e transcendência, Deus e ser humano, verdade e bem, antropologia e teologia. Tais perspectivas operam a passagem do ser ao objeto, do natural ao artificial, do ético ao político e ao técnico, da transcendência à imanência. A ideia de Deus, submetida à crítica ou tornada insignificante, leva à substituição do Deus transcendente da tradição bíblico-cristã por divindades criadas no horizonte da imanência: o progresso, que advoga o contínuo avanço para um futuro melhor; a obsessão pelo tempo, que promove a oposição entre tempo humano e tempo físico, levando à submissão do tempo da vida ao do cronômetro.

As releituras antropocêntricas dos últimos séculos e as críticas contemporâneas não invalidam, porém, o Humanismo. Dentre as perspectivas a partir das quais ele é abordado na atualidade, positiva ou negativamente, merecem destaque: (1) a que articula Humanismo e Transcendência, opondo a visão bíblica, para a qual o humano é abertura à transcendência, à visão imanentista, que atribui ao humano ou à natureza material em evolução o fundamento de toda a realidade. As oposições das décadas de 1940-1960, entre os humanismos cristão, marxista, existencialista e racionalista-cientificista, são substituídas hoje, em contexto pós-metafísico, pela dificuldade de pensar Deus, que continua, contudo, a intrigar filósofos como Wittgenstein, Putnam, Scruton, Habermas, Heidegger, Lyotard, Derrida, Vattimo, Jean-Luc Nancy, Levinas, Marion, dentre outros; (2) a que relaciona Humanismo e Crítica Social, sobretudo através da associação da perspectiva ético-social do Humanismo às lutas pelos direitos humanos. Baseadas na luta pelo reconhecimento da igual dignidade de todo ser humano, essas lutas implicam também a solidariedade para com os menos favorecidos, o respeito às minorias, e, no contexto político, à luta pela justiça que leva em conta a igual dignidade de todos e implica o tratamento desigual dos desiguais, contrariamente ao liberalismo econômico e ao socialismo de Estado. Várias correntes éticas atuais defendem o Humanismo social, como o contratualismo (Rawls, Dworkin), o culturalismo (MacIntyre, Taylor, Sandel), a teoria crítica (Habermas, Honneth); (3) a que busca pensar a ligação entre Humanismo e Natureza, protagonizada pelas várias correntes ecológicas: as que concebem o ser humano como mero produto do processo de evolução natural, recusando-lhe a prioridade sobre os demais seres vivos; as que se fundam na concepção da natureza de caráter holístico e místico, exaltando a terra como entidade viva e fonte sagrada de toda a vida; a das culturas que valorizam toda forma de vida, como as culturas originárias, as culturas do oriente; as das novas leituras da teologia cristã, que estão na origem da Encíclica Laudato Si e seu apelo à responsabilidade de todos na preservação da “casa comum”; (4) a que opõe Humanismo e Pós ou Transhumanismo, com várias correntes também: a da rejeição pós-moderna da metafísica, que nega a existência de uma natureza humana com seus valores e sua situação privilegiada e leva à relativização histórica e cultural de todos os valores e ao niilismo ontológico e ético; a do transhumanismo, que valoriza os recursos tecnológicos da genética, da eletrônica, da robótica, da inteligência artificial etc., como uma nova possibilidade de superação dos limites corporais do ser humano, proporcionando-lhe novas capacidades; a da orientação epistemológica e pedagógica, que faz prevalecer a racionalidade técnico-científica como único acesso à verdade das coisas, que tem como consequência o obscurecimento dos valores humanos tradicionais, como a verdade, a consciência moral, a beleza, o espírito crítico, a fé, o amor, a justiça, a solidariedade e a capacidade de reflexão sobre as experiências humanas fundamentais.

A Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia já tratou em seus simpósios algumas dessas perspectivas, como a da ecologia, em 2012: “Que fazemos com a terra que Deus nos confiou? Filosofia, Teologia e Consciência Planetária”, e a da relação entre Humanismo e pós-humanismo, em 2014: “Do humano ao pós-humano: encruzilhada ou destino?”. O simpósio de 2019 pretende revisitar a questão do Humanismo sob três pontos de vista: (1) o primeiro, Humanismo e Transcendência, visa, mais que fixar-se nas questões debatidas nas décadas de 1940-1960, aprofundar a relação entre ser humano e transcendência no contexto pós-metafísico; (2) o segundo, Humanismo e Crítica Social, quer pensar o contexto no qual vive o Brasil e a América Latina, que reproduz, por um lado, certas dinâmicas do contexto mundial, no tocante à desconfiança com relação aos direitos humanos e aos “descartados” pelo sistema econômico hegemônico, o fechamento ao diferente, por ser estrangeiro, pertencer a outra etnia, religião ou orientação sexual, e, por outro lado, propõe experiências contra-hegemônicas no micro da vida e que podem iluminar o conjunto da sociedade; (3) o terceiro, Humanismo e Cultura do Encontro, busca refletir sobre as provocações e contribuições do Papa Francisco à realização de um autêntico humanismo solidário para nossa sociedade hoje.

As atividades do Simpósio se articularão ao redor desses eixos. Três Conferências, destinadas ao conjunto dos participantes, colocarão as balizas da reflexão. QuatroPainéis de discussão permitirão um diálogo entre os conferencistas presentes e o público, para esclarecimento crítico das temáticas abordadas. Um conjunto de Semináriosmonotemáticos, versando sobre aspectos desses eixos, será oferecido a pequenos grupos, permitindo um maior aprofundamento dos distintos aspectos da temática do simpósio. As Comunicações oferecerão aos pesquisadores oportunidade de compartilhar o resultado de seus trabalhos, contribuindo para enriquecer a reflexão.

 

Programação e inscrições: www.faculdadejesuita.edu.br/eventos/simposio2019

 
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